Casa arrumada

Quando soube que você vinha, decidi tornar a casa um pouquinho mais aconchegante e arrumada.

Juntei todos os livros espalhados por aqui e os coloquei na estante da sala. Organizei os autores por ordem alfabética. Tomei distância, observei. Eles estavam bem melhores assim, reunidos num lugar só.

Mas achei que seria melhor se eles estivessem dispostos por ordem alfabética de títulos e refiz o trabalho. Só que ainda não estava bom o suficiente. Pensei, repensei. Organizei por assuntos e, dentro de cada assunto, os distribuí por ordem alfabética de títulos. Agora sim.

Tinha deixado um monte de papéis de bala no sofá ontem, tive que jogar todos fora. Pior que tinham muitos outros por aí. Fiquei na esperança de não ter deixado nenhum à vista.

Varri o chão que estava imundo, tirei um pouco de poeira das prateleiras. Guardei os fones de ouvido, os carregadores e outros cabos na primeira gaveta da cômoda no meu quarto.

Dei uma olhada nos quadros. Alguns deles estavam pendurados muito tortos e nem sei como. Tive que tirar todos da parede e escolher uma nova disposição. Levei quase uma hora inteira para pendurá-los de volta, mas porque era importante. Eles precisavam ser devolvidos à parede de forma muito específica e as distâncias entre quadros adjacentes deveriam ser exatamente iguais. A disposição que planejei foi excelente: alcancei uma harmonia milimetricamente calculada para parecer casual.

“Falta alguma coisa? Acho que não”, pensei. “Ah, mas talvez os vasinhos pudessem ganhar uma disposição melhor também.” Decidi combinar as cores das flores com os móveis e as paredes. Mas claro, sempre dando maior importância à quantidade de informação: as plantas maiores ocupariam os maiores espaços vazios, pra que nenhum cômodo da casa parecesse cheio demais.

“As cores! Como não havia pensado nisso antes?”

Voltei à estante de livros e fiquei encarando-os durante um tempo. Organizá-los segundo as cores seria genial, uma forma nada clichê de categorização. Mas, pensando bem, não seria nada prático. Deixei como estava então.

Assustei com o toque da campainha. Eu ainda não tinha trocado de roupa! Minha sorte foi ter planejado com antecedência, logo pela manhã, o que vestir.

Fui me trocar e voltei rapidamente para te deixar entrar, não te deixei esperando muito. Antes de abrir a porta, ensaiei meu melhor sorriso espontâneo. Abri cuidadosamente e deixei o carinho que tenho por você emanar do meu sorriso, dos meus gestos e dos meus olhos.

Escancarei a porta, preparada para te receber.

Você observou o interior.

Te convidei para entrar da forma mais encantadora possível,
mas você não quis.

Depois de alguns segundos sem que eu tivesse reação, você falou: pra você já não dava mais.

O motivo? Passei dias acreditando que era porque as cores da minha roupa não estavam harmoniosas o suficiente ou porque algum cômodo apresentava informação demais. Será que eu tinha esquecido algum papel de bala? Ou, talvez, foram os livros.

Mas entendi algum tempo depois que não era nada disso. Você não se importava com o quão bonita estava minha casa quando a apresentei para você, nem ligava para a disposição dos meus quadros ou dos livros. Nada disso importava de forma alguma. O problema era que você tinha olhado nos meus olhos e visto minha alma. E ela era o completo oposto da minha casa.

 

(Foto: Kari Shea)

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