Sobre nossos muros, alarmes e armadilhas

Acho que todos nós temos alguma espécie de muro, algum conjunto de alarmes ou algumas armadilhas cuidadosamente distribuídas.

Muros tão altos que permitem enxergar apenas as estrelas. Escorregadios, quase impenetráveis. Construídos para afastar quem caminha armado. Muros que protegem contra as mais assustadoras criaturas, que interrompem a viagem de flechas, que intimidam.

Alarmes configurados para disparar quando a aproximação for preocupante. Que permitem espiar um pouco do que há no interior, até começarem os sons insuportáveis e as luzes ofuscantes. Até que a calmaria seja interrompida pelo esforço do anfitrião em expulsar os visitantes.

Armadilhas capazes de surpreender e ferir os mais fortes guerreiros, distribuídas por todos os cantos da casa. Bem escondidas, das quais é quase impossível escapar.

Todos nós erguemos proteções depois dos traumas que relacionamentos trazem.

A gente sente muito medo.
(medo de mudar nossas rotinas. de sentir. de se entregar.)

Permanecer sozinho é confortável. Evitar amizades e amores parece sinônimo de evitar sofrimento. Derrubar os muros, desativar todos aqueles alarmes e desmontar as armadilhas significa se tornar vulnerável.

Deixar as portas abertas é se arriscar a receber alguém que vai revirar sua casa inteira, procurando algo que você não pode oferecer, e ir embora de repente, deixando uma bagunça imensa para você organizar. Se livrar da segurança e deixar alguém se aproximar é permitir que outra pessoa conheça os detalhes da sua decoração e, com o tempo, passe a influenciá-la. (Você acredita que seu quarto está do jeitinho que você precisa, até chegar alguém que te fará querer mudar as cores da parede e arranjar novos quadros.) Não preparar armadilhas é olhar no fundo dos olhos de quem você recebeu em sua casa, enquanto vocês dançam pela sala, e ter de se esforçar para cumprir seu papel nessa valsa estranha e cansativa.

É cômodo ficar dentro de casa, em segurança. É prático saber exatamente onde está tudo o que você precisa, já que você passou muito tempo organizando tudo da melhor forma possível. da sua forma. É agradável decorar a casa do seu jeito, sem receber opiniões. Nunca se cansar daquele sofá azul e não ter que se acostumar com uma nova prateleira.

(Mas será que isso não fica entendiante?)

Permanecer sozinho é extremamente confortável.
Mas não se entregar não é sinônimo de viver.

(Foto: artitudePixel)

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8 comentários em “Sobre nossos muros, alarmes e armadilhas

  1. Eu vou ser sincera: até agora, está sendo melhor eu ficar sozinha. Não foi um relacionamento amoroso que me tornou meio reclusa, foi meu relacionamento com pessoas no geral, até mesmo com minha família. Eu meio que criei uma bolha de segurança, e eu raramente permito que alguém chegue muito perto. Eu tenho na cabeça que, qualquer um que chegar perto vai querer me machucar. Isso é horrível, porque meus planos para o futuro sempre envolvem… eu e eu. Talvez isso acabe um dia, mas não sei quando. Por ora, eu gosto de ficar sozinha, pensar sozinha, e decidir sozinha.

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    1. Espero que você consiga, um dia, permitir que as pessoas cheguem perto, pelo menos um pouquinho. Nem todo mundo irá te machucar.

      Mas ficar sozinho não é só confortável, é ótimo também – e fundamental. Por isso, há um lado positivo nessa situação.

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  2. uaaaaaaau! Que texto maravilhoso! Eu me isolava demais também, por medo de futuras decepções, mas chegou uma hora que não dava mais pra ficar sozinha sabe? Não era só uma distância para me sentir segura, e sim medo de ter qualquer tipo de relacionamento e ser decepcionada. E com os livros e alguns textos, eu “aprendi” que a decepção faz parte. Enfim, eu acho que as vezes precisamos arriscar e deixar o conforto um pouco de lado, mas voltar sempre que for necessário. Amei o seu texto!

    Bjos, Marinspira

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    1. Concordo demais com o que você falou! É bem assim, não dá pra permanecer com medo. A gente sai do conforto, aprende, cresce e, quando não der mais, sempre dá pra voltar pro aconchego de nós mesmos.
      Muito obrigada pelas palavras! Fico bastante feliz que tenha gostado ❤

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  3. Yari, que texto! Parabéns! Penso que isso se aplica não só para o “permanecer sozinho”, mas também para o permanecer em qualquer estado cômodo da vida. A mudança, a novidade, a descoberta sempre demanda que nos libertemos dos medos. Melhor dizendo, que o enfrentemos. Você acaba de ganhar uma leitora nova hehe 😉 Bjo!

    Curtido por 1 pessoa

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