Dificuldade para respirar

Era muito cedo e ninguém mais tinha levantado. De olhos fechados, eu estava há alguns minutos prestando atenção aos sons da manhã. As folhas das árvores balançando com o vento faziam uma harmonia interessante com o canto de alguns pássaros.

Abri os olhos e deixei que eles descansassem em cada detalhe do que via. As cores pareciam mais brilhantes. O céu tinha um tom de azul que me trazia uma sensação de paz. Notei os vários verdes das folhas e os tons de rosa e lilás das flores. As nuvens e o sol mudavam as cores que eu enxergava de vez em quando, me forçando a esquecê-las e então aprendê-las de novo.

Em silêncio e sem me mover, prestando tanta atenção àquilo que meus sentidos me contavam, eu senti o peso e a maravilha da solidão.

Passaram-se longos minutos antes que eu notasse que havia algo errado. Minha audição não conseguia encontrar um som que deveria estar ali: o som da minha respiração. Fazia muito tempo que eu não conseguia respirar.

É que sempre tinha alguma tarefa que eu deveria cumprir. Sempre tinha algo que eu adicionei à lista de afazeres depois de dizer um “deixa comigo”, “eu faço isso”, “eu dou conta”, mesmo sem dar conta. Sempre tinha algum filme que deveria me ensinar alguma coisa, mas que apenas me mantinha entretida, porque eu tinha medo de pensar demais. Sempre tinha algum capítulo daquela série para me tirar o fôlego e me deixar completamente concentrada, a ponto de esquecer de tudo. Sempre tinha um “oi” que mais parecia um pedido de socorro e que me anestesiava durante vários minutos. Sempre tinha alguma música tocando num volume alto demais, para que conseguisse silenciar meus pensamentos.

Sempre tinha alguma coisa me fazendo prender a respiração. Porque eu tinha medo que, ao expirar, destruísse todos aqueles muros que me protegiam do que eu não queria ver.

Mas o mundo estava lá fora, respirando no ritmo certo. Respirando devagar. Tentando encontrar seu equilíbrio. Respirando. E fazia muito tempo que eu não conseguia respirar. Fazia muito tempo que eu fugia daquela dor que estava me consumindo e do silêncio que me preenchia.

Eu não tinha notado que fugir não me levaria a nada. Não tinha percebido o quanto eu precisava respirar. Não tinha me dado conta de que eu estava me sufocando com minhas tentativas de não me afogar em tanto sentimento.

Era preciso respirar lentamente. Prestar atenção no ar entrando dentro do meu corpo, percorrendo cada centímetro dele e colocando ordem no caos. E, depois, senti-lo levando embora tudo o que estava alojado aqui dentro e que me fazia mal.

Prender a respiração era aprisionar a dor dentro de mim. Respirar era uma forma de me curar, mesmo que lenta e dolorosamente.

Finalmente eu entendi que era necessário tempo. Nada seria resolvido com pressa. Eu precisaria dos dias acompanhada apenas do silêncio, precisaria ouvir e dizer muitos “não”, precisaria ter paciência. Aquilo não era um corte na superfície da pele que rapidamente cicatriza, era uma rachadura profunda que havia me colocado em constante risco de desabar.

Finalmente eu entendi que eu não dormiria bem no dia seguinte, que não estaria sorrindo como sempre sorri já na próxima semana, que não voltaria a sonhar em apenas 10 dias. Eu precisava de mais do que isso. Eu precisava de cuidado e paciência. Precisava vencer o medo do vazio e me curar, sozinha e calmamente.

Então, fechei os olhos e respirei fundo, pela primeira vez em muito tempo.

 

(Foto: Rocio Montoya)

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28 comentários em “Dificuldade para respirar

  1. Caraca. Adorei seu texto. Sim, a solidão é nossa amiga mesmo. Porém você tem que aprender a conviver com ela de uma forma positiva, sem deixar que a rotina e até mesmo o próprio estado em si nos sufoque. Amei!

    Até mais!
    Karolini Barbara

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  2. Que texto amorzinho ♥ A solidão, ainda que seja vista com olhos errôneos, é uma bela companheira de dança. A gente se prende com medo do que está por vir, com medo do futuro, do incerto, mas se arriscar é necessário, respirar fundo é necessário. Se dar ao prazer de manter a casa e o coração em ordem. Teu texto tá incrível, sensível, intenso.

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  3. Que texto incrível, menina! Me vi em cada linha (algumas lágrimas rolaram no rosto).
    “Não tinha me dado conta de que eu estava me sufocando com minhas tentativas de não me afogar em tanto sentimento.” A definição da minha vida no momento! Ontem mesmo estava dizendo à uma amiga que quanto mais eu tentava provar pra mim mesma que estava tudo bem, que eu não sentia nada, mais eu me via afundando nesse sentimento. Agora eu vejo que isso tudo é em vão. Sabe aquele perfume gostoso que a gente inspira, inspira, inspira até ir embora? Da mesma forma com os sentimentos: ele só partem depois de a gente sentir o último cm2
    Beijos
    http://pyetramelo.blogspot.com.br/

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    1. Muito obrigada, Pyetra! ❤
      É exatamente isso que eu demorei tanto tempo a entender. Não dá pra ficar fugindo, não é? A gente precisa sentir completamente, até o sentimento ir embora, assim como o cheiro do perfume uma hora vai. (Adorei a comparação haha)
      Fico extremamente feliz de saber o quanto você se identificou! É tão bom quando alguém se identifica com o que a gente escreve! 🙂
      Beijos!

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  4. Uauuuuu… O texto é lindo e, infelizmente, me identifiquei completamente com o relato. Parece que me permitir pensar, eu vou começar a chorar até me afogar em lágrimas, então, ocupo meu tempo com inutilidades que não me levarão a lugar nenhum. Talvez já esteja afogada e não quero me dar conta disso.
    Beijos!

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  5. Me arrepiei com seu texto e estou com uma vontade imensa de chorar. Você escreve muito bem e – caso seja uma situação real a que você está enfrentando – saiba que, se precisar, pode me chamar para desabafar. Já passe por uma época difícil, e as pessoas realmente não sabiam o que fazer para me ajudar. E é pior coisa do mundo se sentir totalmente incompreendida e sozinha no mundo.

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    1. Situações assim são tão complicadas… E é mesmo difícil encontrar alguém que saiba como ajudar ou se disponha a isso. Mas, felizmente, escrevi sobre algo que consegui superar – com a ajuda da família e de alguns amigos – e que me fez crescer muito. 🙂
      Muito obrigada, Gislaine, pelo elogio e por oferecer um ombro amigo! Um sorriso enorme surgiu aqui depois de ler seu comentário ❤

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  6. Eu me sinto assim na praia. Estamos sempre correndo. Cada ano que passa é mais difícil parar e olha para o mar sem pensar no Blog que precisa ser atualizado, no trabalho da faculdade, no quarto para arrumar… Mas tento me forçar a parar e respirar pois isso faz uma grande diferença no dia a dia

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