Há meses

Há dias que parecem não terem sido feitos pra ser, dias que deveriam ser enfrentados em coma. Há dias em que abrir os olhos é doloroso, simplesmente porque todos aqueles pensamentos voltam quando você acorda. Há dias que você vive apenas desejando que eles terminem.

Há semanas em que você não consegue acordar um dia sequer sem se perguntar “por que eu tô acordando?”.  Há semanas que poderiam ser facilmente apagadas da sua memória – você agradeceria tanto por isso! – porque não foram nada além de um pesadelo que parecia interminável. Há semanas em que você só consegue ter vontade de se mover até sua cama, mas você passa pouco tempo nela, porque tem várias atividades sem sentido pra riscar da lista de afazeres.

Há meses em que você não se reconhece, se é que você se conhece… Há meses em que você se torna coadjuvante em sua própria vida, só observando o tempo passar. Há meses que são gastos com atividades vazias para tentar te preencher e pensamentos inúteis para tentar silenciar os dolorosos. Há meses em que você se pergunta o porquê de ter nascido, o porquê de ter acordado, o porquê de ser você. Há meses em que você é puro medo: medo das pessoas, dos rumos que sua vida pode tomar, do que passa na sua cabeça e de como você age. Há meses em que encontrar um sentido para as mínimas coisas é tarefa árdua.

Mas é possível que apareçam em seu caminho alguns segundos de pura felicidade, uma sensação momentânea de realização profunda. Por isso, te peço: aguente pelo menos até o fim do dia. Você pode acabar encontrando uma coisa simples que te faça parar de pensar em suas dores e te faça sorrir com os olhos até que você sorria com a alma, como você não fazia há meses. Aí, talvez, você comece a quebrar um ciclo vicioso que já dura muito tempo e comece a perceber algum sentido nas coisas que você começou a desvalorizar.

Talvez você comece a acreditar que sorrir não é tão impossível. E que dá, sim, pra rir de uma piada ou outra. Pode ser até possível dormir sorrindo, sem chorar até cair no sono.

Você pode começar a acreditar que não é um ser humano de todo ruim. Você pode notar que tem família e amigos que te amam muito, que ainda estão lá com você por mais que você se recuse a olhar para eles e pedir ajuda. Você pode notar que, sim, você tem vários problemas e sua vida não é nada perfeita, mas você e ela merecem valor.

No dia seguinte, talvez você acorde se sentindo meio entorpecida, porque ainda terá muita dor dentro de você. Mas talvez você vá sorrir sinceramente sozinha e sem muito esforço, como não fazia muito bem há meses. E vai ter vontade de sair cantando pela casa como não fazia há bastante tempo. Talvez você sinta até vontade de comer, como não sentia há semanas.

E quando sentir o cheiro da manhã, da vida renascendo pra você; quando sentir o sol aquecendo suas bochechas, como se quisesse te abraçar; e quando começar a se lembrar das suas tantas boas histórias, você vai chorar de novo. Mas, dessa vez, as lágrimas virão porque você não se sentia tão simples há meses. E talvez você perceba que essa dor que você está sentindo passará, que esses medos serão superados, que essas dúvidas se tornarão irrelevantes e que, um dia, você encontrará uma saída para esse ciclo vicioso que te fez mergulhar em escuridão.

Talvez você feche os olhos e agradeça aos céus, só hoje. Afinal, você está viva.

 

(Foto: Baohien Ngo)

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